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Dr Plinio comenta como a mentalidade católica é formada pelo dom de Sabedoria.
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Ao redigir, por volta do ano de 1940, um memorando sobre vida espiritual, Dr. Plinio teceu profícuos comentários que, longe de serem meras normas abstratas, são o resultado de experiências vividas no fragor das batalhas interiores, rumo à santidade.
Da graça dependem a possibilidade e a excelência da obra de nossa santificação; mas de nossa vontade depende sua realizaçãoTendo em vista a tremenda decadência moral de nossa época, a ninguém será possível conservar uma perfeita pureza de corpo e de alma sem uma vigilância constante sobre o seu interior. As más sugestões pululam por toda parte e provocam movimentos desordenados da sensibilidade, que podem passar despercebidos no início, simular-se mesmo de bons sentimentos e de virtudes, até que a onda avolumada se lance impetuosamente e já quase não haja mais como resistir-lhe. Assim, muitas vezes o incauto alimenta, com ingenuidade culposa, a própria chama em que arderá.
Maior perigo corre, ainda, a integridade da fé. Nesse mundo desvairado de nossos dias, a nossa sabedoria católica pode ser substituída por loucura, se não a guardarmos com escrupuloso cuidado. Há muitos que pensam manter íntegra a sua fé, mas, na verdade, conservam apenas as exterioridades do dogma, sem a substância, porque o mais íntimo e oculto recanto da inteligência lhes adere à terra. Isto porque, nos afazeres cotidianos, não tiveram a devida reflexão, expuseram-se às surpresas de uma natureza decaída e, assim, se lhes deformou a mentalidade.
Principalmente, sem este prudente hábito de ver, julgar e agir em relação a si mesmo, não será possível a formação do senso católico, esta delicada flor da fé que nos dá a capacidade de sentir, nas mínimas coisas, o bom odor de Cristo ou o cheiro pestilencial da mundanidade, e de saber a cada momento o que é mais favorável à Igreja, pois que o amor ardoroso tem pressentimentos daquilo que o entendimento ainda não viu.
O homem é livre, determina-se no seu agir, sendo senhor de seus atos. Não quer isto dizer que não sinta a atração dos objetos vários que o cercam, os quais lhe aparecem como fins possíveis de sua atividade, mesmo porque, sem esta atração, a vontade humana não poderia agir. De fato, a vontade se inclina de si mesma para o bem e, portanto, não se pode mover se algum bem não lhe é proposto.
Entretanto, o bem para o qual a vontade se inclina própria e necessariamente é o bem absoluto, pois a experiência prova, irrefragavelmente, que todos desejamos uma felicidade ilimitada. Tal felicidade, porém, não pode ser dada pelas coisas deste mundo, que são limitadas em si mesmas. Logo, nada deste mundo pode atrair irresistível e absolutamente a vontade. E, quando a vontade escolhe um objeto, ela o faz tendo em vista aquela felicidade ilimitada, para cuja consecução o objeto escolhido contribui de alguma forma.
Muitas vezes, embora vejamos o verdadeiro bem, sentimos o peso das más tendências que nos impelem para objetos que não podem saciar o nosso ardente desejo de uma felicidade plena, antes afastam dela, mas que iludem esse desejo com uma aparente satisfação, que logo se dissipa. Cedemos, então, muitas vezes, mas cedemos livremente, sabendo que abandonamos o caminho do verdadeiro bem, movidos pelo imediatismo, que acha muito longo e difícil esse caminho.
E, livremente, abdicamos de nossa liberdade, entregando-nos às forças tremendas que o pecado original desgarrou em nós. Assim, de queda em queda, vai-se enfraquecendo o poder da vontade, até que essas forças se tornam mais poderosas e escravizam o pecador, que, daí por diante, só se utilizará da liberdade para entregar-se a elas. É necessário, portanto, fortalecer a vontade pelo exercício sistemático de atos austeros, para que ela possa, sem perigo, dominar as tendências desordenadas que todos possuem por causa do pecado original e, assim, pôr ordem na alma.
Nada, porém, pode robustecer tanto a vontade e iluminar a inteligência a respeito do bem como a graça de Deus, que nos vem abundantemente de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Neste sentido, há uma dupla definição do Concílio Tridentino que ilumina singularmente o assunto. Em primeiro lugar, é heresia afirmar que os infiéis não possam praticar atos virtuosos, porque, se assim acontecesse, o homem não seria naturalmente livre. Entretanto, quem afirmar que é possível ao homem, sem o auxílio da graça, cumprir durável e totalmente os Mandamentos, seja anátema, porque isso seria negar os efeitos do pecado original. Assim, a educação da vontade nunca poderia ser completada sem a graça, pois pela graça ela adquire seu verdadeiro significado: é a correspondência livre do homem ao dom inestimável de Deus.
Além disso, a graça transforma os nossos atos, dando-lhes um valor sobrenatural.
Assim, da graça dependem a possibilidade e a excelência da obra de nossa santificação; mas de nossa vontade depende sua realização. Do contrário, já não haveria mérito; e seria absurdo supor que aquilo que nem o pecado original tirou, a liberdade, fosse suprimido pela graça. A graça é um conforto para a vontade, que, fortalecida, sabe afirmar-se entre tantas forças dissidentes e seguir sua inclinação natural para o verdadeiro bem, e não a sua decadência, escolhendo livremente, segundo o seu critério interior, o que lhe parece melhor. E se a graça é um conforto, torna-se necessário que a vontade se sirva deste conforto, para não acontecer que a graça fique vazia em nós e, portanto, inútil, conforme o que diz o Apóstolo (cf. I Cor 15, 10).
Será ilusão pensar numa santificação automática pela graça. A vida dos Santos, pelo contrário, demonstra que a santificação é uma luta ardorosa e tenaz.
A prece verbal ou mental, particular ou litúrgica, não constitui o fim da vida espiritual. Este fim é a santificação, ou seja, a morte à nossa natureza decaída e nossa reedificação em Jesus Cristo (cf; Rm 6, 3-11). Mas a prece constitui um meio eficaz para dotar o católico de maiores recursos para o combate interior. O auxílio divino, porém, é concedido segundo a reta intenção de quem pede, em qualquer espécie de prece.
Assim também os Sacramentos: embora contenham objetivamente a graça, e sejam por isso um recurso certo, de nada servem sem a correspondência interior de quem os recebe. Da mesma forma, o Santo Sacrifício da Missa é uma torrente caudalosa de graças, mas a maior ou menor recepção delas, com maior ou menor aproveitamento, depende essencialmente das disposições interiores dos assistentes.
Uma graça assim correspondida por nós, e que em nós produziu fruto, é penhor de novas e maiores graças. E, ao conceder-nos esta maior liberdade, Deus exige de nós mais numerosos e excelentes frutos de santificação, até nossa perfeita consumação em Jesus Cristo. Assim, a maior abundância de graças conferidas a uma pessoa não se destina a privar a sua vida espiritual de todos os obstáculos, mas a torná-la capaz de vencer obstáculos sempre maiores. De fato, a nossa natureza foi deformada, de alto a baixo, pelo pecado original.
Assim, é necessário que destruamos o edifício viciado de nossa natureza pecaminosa, para reedificá-lo em Cristo. E quanto mais progride e se aprofunda este trabalho, com a graça de Deus, mais dificultoso se torna, porque remontamos para a causa de todos os nossos defeitos, até chegarmos àquele ponto em que mereçamos receber do Espírito Santo a transformação final. Não só mereçamos recebê-la, mas tenhamos ânimo de suportá-la.
Meditar é aplicar a inteligência às verdades eternas, para sempre melhor conhecê-las. Aplicá-la também ao conhecimento exato, o quanto possível, de nós mesmos, para verificar o grau de correspondência entre aquilo que há em nós e aquelas verdades eternas, e, por aí, deduzir os meios práticos para atingir essa correspondência. Para este último fim é necessária uma aplicação da vontadesobre todo o já meditado, para que se fortaleça no amor ao bem e no ódio ao mal, e se proponha a aperfeiçoar-se. Há vários métodos de meditação, mas entre todos se salientam os que se contêm nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.
Para bem meditar é quase sempre necessária a leitura espiritual, ou seja, a leitura atenta e devota de algum livro de piedade, devidamente aprovado pela autoridade eclesiástica.
A leitura espiritual recorda-nos nosso destino eterno em meio às atividades deste mundo, que nos distraem pela sua multiplicidade e urgência; desapega-nos a inteligência e a vontade das coisas terrenas e eleva-nos a sensibilidade, já mostrando-nos as misteriosas belezas da Fé, já movendo-nos pelos exemplos de santidade, ou ainda, dando-nos regras práticas de vida e de devoção. Desta forma, a leitura espiritual deposita em nós os germes da perfeição cristã, que hão de ser desenvolvidos e amadurecidos pela meditação, a qual encontra neles seus elementos vitais. Mais explicitamente, é a leitura espiritual que fornece a matéria de nossa meditação.
Entretanto, para ser proveitosa, esta leitura deve ser periódica, frequente e cuidadosamente proporcionada aos interesses especiais de cada um, porque, do contrário, a sua influência fragmentária e esparsa facilmente seria delida pelos agentes mundanos, que atuam quase sem cessar.

Para bem meditar é ainda necessário o conhecimento claro da doutrina da Igreja.
Vimos que a meditação versa sobre as verdades eternas. Ora, estas verdades estão contidas na doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, sem a instrução religiosa que nos dê o seu conhecimento claro, não só se poderão perder os frutos da meditação e da leitura espiritual, como também poderá acontecer muito provavelmente que o espírito se ponha a divagar por caminhos escusos, que levam a ilusões perigosas e a erros funestos, com suas consequências imprevisíveis sobre a sensibilidade.
Além disso, na doutrina da Igreja se contém as verdades que são o objeto da fé. Ora, se é a fé o que caracteriza a nossa profissão de católicos, todos estamos obrigados a conhecer tais verdades em toda a medida de nossa condição e capacidade, pois ninguém pode crer sem saber no que crê. E será suma ingratidão para com Deus, que nos revelou estas verdades para nossa salvação, não nos aplicarmos a conhecê-las o quanto nos for possível.
O fruto próximo da vida espiritual, segundo vimos indicando, deve ser o firme propósito, o desejo cada vez mais vivo e ardente de servir a Deus e de desapegar-se inteiramente das coisas do mundo. Desejo vivo, porque se propõe a empregar todos os meios conducentes a este fim e não desfalece ante as dificuldades e à vista da própria fraqueza, mas que está cônscio de seu livre-arbítrio e confia humilde e ativamente na Providência. Ardente, porque se consome no zelo pela glória de Deus.
O firme propósito não quer dizer a promessa de sempre, em tudo e nas mínimas coisas realizar a vontade de Deus, porque tal promessa não se pode fazer sem uma vocação especial ou graça toda particular e, assim mesmo, em relação a certos fatos determinados. Mas é a vontade intensa de que isso aconteça o mais breve e perfeitamente.
Para evitarmos surpresas e auferirmos os resultados positivos da vida espiritual, e, por aí, adotarmos os métodos sempre mais adequados de procedermos para com nós mesmos, é necessário o exame de consciência pelo menos cotidiano.
O exame consiste na inspeção cuidadosa de nossos pensamentos, palavras e obras, num período de tempo determinado, e na investigação dos motivos e circunstâncias desse nosso comportamento. No exame assim feito está a chave da vida espiritual, pois é pela apreciação concreta do que se passa em nós que podemos atingir a atividade superior e geral de ver, julgar e agir em nós mesmos. Além disso, o exame de consciência ajuda-nos a desfazer falsas ideias sobre nós mesmos, leva-nos à humildade e excita-nos o arrependimento.
Também é necessário o exame de consciência para a Confissão. Neste particular todos devem ter o seu diretor espiritual, que é a cúpula de tudo quanto se tem dito em matéria de vida de piedade. De fato, praticamente de nada adiantariam todas as recomendações que se vêm fazendo sem a direção de um sacerdote que, por estar muito mais aparelhado pelos seus conhecimentos e graças especiais, sabe indicar os caminhos que seus penitentes poderão seguir com segurança.
Se não fosse pela inexperiência dos que se iniciam nas vias da perfeição – inexperiência que os fará certamente errar se não tiverem um guia –, bastaria considerar que a vida espiritual exige que cada um se julgue a si mesmo. Ora, ninguém pode ser juiz, não diremos imparcial, mas objetivo de si mesmo. É preciso, portanto, uma terceira pessoa de grande sabedoria e de virtude inconteste.
A vida espiritual exige a mortificação, isto é, a guarda cuidadosa dos sentidos, ou não será vida espiritual. A verdadeira mortificação não consiste apenas em nos privarmos dos prazeres ilícitos ou perigosos, mas também daqueles prazeres lícitos que podem lisonjear as más disposições e tendências desregradas de cada um.

Enfim, todas estas regras de vida espiritual devem encontrar seu complemento indispensável numa dupla devoção, sem a qual nenhum fruto se colheria: a devoção a Nossa Senhora e à Santíssima Eucaristia.
A Santíssima Virgem é a Rainha da bem-aventurança e dos bem-aventurados, e a devoção a Ela constitui sinal certo de predestinação. Só há um caminho para Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo; mas só há um caminho para Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Nossa Senhora, a Medianeira de todas as graças.
Assim, o devoto da Santíssima Virgem encontrará no Coração de Maria o próprio Coração de Jesus, naquilo que este Coração tem de mais amoroso, mais terno e mais compassivo. Ora, onde mais se manifestam as finezas do Coração de Jesus é na Santíssima Eucaristia. Desse modo, a devoção a Nossa Senhora leva natural e espontaneamente à devoção eucarística.
Sem este culto fervoroso à Eucaristia – que só pode ser verdadeiro com o culto mariano, pelo culto mariano e no culto mariano – não é possível a vida espiritual, pois esta consiste na assimilação deste sublime alimento. É no Santíssimo Sacramento que reside não só a graça, mas o Autor de toda graça, à cuja semelhança se fazem os eleitos, porque fora d’Ele não há bênção nem fruto, nem ressurreição bem-aventurada. A Ele, pois, sejam dadas honra, glória, louvor, adoração, ação de graças, por todos os séculos. Amém. ◊
Extraído, com adaptações, de:
Dr. Plinio. São Paulo. Ano IV.
N.38 (maio, 2001), p.20-24;
N.39 (jun., 2001), p.6-9
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 22 de Junho de 2011
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O homem em oração (7) O povo de Deus que reza: os Salmos Queridos irmãos e irmãs Nas catequeses precedentes, reflectimos sobre algumas figuras do Antigo Testamento particularmente significativas para a nossa meditação sobre a oração. Falei a respeito deAbraão, que intercede pelas cidades estrangeiras; acerca de Jacob, que na luta nocturna recebe a bênção; de Moisés, que invoca o perdão para o seu povo; e sobre Elias, que reza pela conversão de Israel. Com a catequese de hoje, gostaria de começar um novo trecho do percurso: em vez de comentar episódios particulares de personagens em oração, entraremos no «livro de oração» por excelência, o livro dos Salmos. Nas próximas catequeses leremos e meditaremos sobre alguns dos Salmos mais bonitos e mais queridos à tradição orante da Igreja. Hoje, gostaria de os introduzir, falando sobre o livro dos Salmos no seu conjunto. O Saltério apresenta-se como um «formulário» de orações, uma colectânea de cento e cinquenta Salmos, que a tradição bíblica oferece ao povo dos fiéis para que se tornem a sua, a nossa oração, o nosso modo de nos dirigirmos a Deus e de nos relacionarmos com Ele. Neste livro, encontra expressão toda a experiência humana, com os seus múltiplos aspectos, bem como toda a gama de sentimentos que acompanham a existência do homem. Nos Salmos entrelaçam-se e exprimem-se alegria e sofrimento, desejo de Deus e percepção da própria indignidade, felicidade e sentido de abandono, confiança em Deus e solidão dolorosa, plenitude de vida e medo de morrer. Toda a realidade do crente conflui nestas orações, que primeiro o povo de Israel e depois a Igreja assumiram como mediação privilegiada da relação com o único Deus e resposta adequada ao seu revelar-se na história. Enquanto orações, os Salmos constituem manifestações da alma e da fé, em que todos se podem reconhecer e nos quais se comunica aquela experiência de particular proximidade de Deus, à qual cada homem é chamado. E é toda a complexidade do existir humano que se concentra na complexidade das diversas formas literárias dos vários Salmos: hinos, lamentações, súplicas individuais e comunitárias, cânticos de acção de graças, Salmos sapienciais e outros géneros que se podem encontrar nestas composições poéticas. Não obstante esta multiplicidade expressiva, podem ser identificados dois grandes âmbitos que resumem a oração do Saltério: a súplica, ligada à lamentação, e o louvor, duas dimensões ligadas entre si e quase inseparáveis. Porque a súplica é animada pela certeza de que Deus responderá, e de que isto abre ao louvor e à acção de graças; e porque o louvor e a acção de graças brotam da experiência de uma salvação recebida, que supõe uma necessidade de ajuda que a súplica exprime. Na súplica, o orante lamenta-se e descreve a sua situação de angústia, de perigo e de desolação, ou então, como nos Salmos penitenciais, confessa a culpa, o pecado, pedindo para ser perdoado. Ele expõe ao Senhor o seu estado de espírito na confiança de ser ouvido, e isto implica um reconhecimento de Deus como bom, desejoso do bem e «amante da vida» (cf. Sb 11, 26), pronto a ajudar, salvar e perdoar. Por exemplo, assim reza o Salmista, noSalmo 31: «Junto de vós, Senhor, refugio-me. Que eu não seja confundido para sempre [...] Vós livrar-me-eis das ciladas que me armaram, porque sois a minha defesa» (vv. 2.5). Por conseguinte, já na lamentação pode sobressair algo do louvor, que se preanuncia na esperança da intervenção divina e que em seguida se faz explícita, quando a salvação divina se torna realidade. De maneira análoga, nos Salmos de acção de graça e de louvor, fazendo memória do dom recebido contemplando a grandeza da misericórdia de Deus, reconhece-se também a própria insignificância e a necessidade de ser salvo, que se encontra na base da súplica. Confessa-se assim a Deus a própria condição de criatura, inevitavelmente caracterizada pela morte, e no entanto portadora de um desejo radical de vida. Por isso o Salmista exclama, no Salmo 86: «Louvar-vos-ei de todo o coração, Senhor meu Deus, e glorificarei o vosso nome eternamente. Porque a vossa misericórdia foi grande para comigo, e tirastes a minha alma das profundezas da região dos mortos» (vv. 12-13). De tal modo, na oração dos Salmos, súplica e louvor entrelaçam-se e fundam-se num único cântico que celebra a graça eterna do Senhor que se debruça sobre a nossa fragilidade. Precisamente para permitir que o povo dos fiéis se una a este cântico, o livro do Saltério foi concedido a Israel e à Igreja. Com efeito, os Salmos ensinam a rezar. Neles, a Palavra de Deus transforma-se em palavra de oração — e são as palavras do Salmista inspirado — que se torna também palavra do orante que recita os Salmos. Estas são a beleza e a particularidade deste livro bíblico: as preces nele contidas, diversamente de outras orações que encontramos na Sagrada Escritura, não estão inseridas numa trama narrativa que especifica o seu sentido e a sua função. Os Salmos são dados ao fiel precisamente como texto de oração, que tem como única finalidade tornar-se a oração daqueles que os assumem e com eles se dirigem a Deus. Dado que são uma Palavra de Deus, quem recita os Salmos fala a Deus com as palavras que o próprio Deus nos concedeu, dirige-se a Ele com as palavras que Ele mesmo nos doa. Deste modo, recitando os Salmos aprendemos a rezar. Eles constituem uma escola de oração. Algo de análogo acontece quando a criança começa a falar, ou seja, a expressar as próprias sensações, emoções e necessidades, com palavras que não lhe pertencem de modo inato, mas que ele aprende dos seus pais e de que vive ao seu redor. Aquilo que a criança quer manifestar é a sua própria vivência, mas o instrumento expressivo pertence a outros; e ele apropria-se do mesmo gradualmente, as palavras recebidas dos pais tornam-se as suas palavras e através destas palavras aprende também um modo de pensar e de sentir, acede a um inteiro mundo de conceitos, e nele cresce, relaciona-se com a realidade, com os homens e com Deus. Finalmente, a língua dos seus pais tornou-se a sua língua, ele fala com palavras recebidas de outros, que já se tornaram as suas palavras. Assim acontece com a oração dos Salmos. Eles são-nos doados para que aprendamos a dirigir-nos a Deus, a comunicarmos com Ele, a falar-lhe de nós com as suas palavras, a encontrar uma linguagem para o encontro com Deus. E, através de tais palavras, será possível também conhecer e aceitar os critérios do seu agir, aproximar-se ao mistério dos seus pensamentos e dos seus caminhos (cf. Is 55, 8-9), de maneira a crescer cada vez mais na fé e no amor. Do mesmo modo como as nossas palavras não são apenas palavras, mas ensinam-nos um mundo real e conceitual, assim também estas preces nos ensinam o Coração de Deus, pelo que não só podemos falar com Deus, mas podemos aprender quem é Deus e, aprendendo a falar com Ele, aprendemos como ser homens, como sermos nós mesmos. A este propósito, parece significativo o título que a tradição judaica conferiu ao Saltério. Ele chama-se tehillîm, um termo hebraico que quer dizer «louvores», tirada daquela raiz verbal que encontramos na expressão «Halleluyah», isto é, literalmente: «Louvai o Senhor». Por conseguinte, este livro de orações, não obstante seja tão multiforme e complexo, com os seus diversos géneros literários e com a sua articulação entre louvor e súplica, é em última análise um livro de louvores, que ensina a dar graças, a celebrar a grandeza do dom de Deus, a reconhecer a beleza das suas obras e a glorificar o seu Nome santo. Esta é a resposta mais adequada diante do manifestar-se do Senhor e da experiência da sua bondade. Ensinando-nos a rezar, os Salmos ensinam-nos que também na desolação, inclusive na dor, a presença de Deus é uma fonte de maravilha e de consolação; pode-se chorar, suplicar, interceder e lamentar-se, mas com a consciência de que estamos a caminhar rumo à luz, onde o louvor poderá ser definitivo. Como nos ensina o Salmo 36: «Em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz!» (Sl 36, 10). Mas além deste título geral do livro, a tradição judaica atribuiu a muitos Salmos alguns títulos específicos, conferindo-os em grande maioria ao rei David. Figura de notável importância humana e teológica, David é uma personagem complexa, que atravessou as mais diversificadas experiências fundamentais do viver. Jovem pastor do rebanho paterno, passando pelas vicissitudes alternadas e por vezes dramáticas, torna-se rei de Israel, pastor do povo de Deus. Homem de paz, combateu muitas guerras; incansável e tenaz investigador de Deus, traiu o seu Amor, e isto é característico: permaneceu sempre investigador de Deus, não obstante tenha pecado muitas vezes gravemente; penitente humilde, recebeu o perdão divino, mas também a pena divina, e aceitou um destino marcado pela dor. Assim, David foi um rei, com todas as suas debilidades, «segundo o Coração de Deus» (cf. 1 Sm 13, 14), ou seja, um orante apaixonado, um homem que sabia o que quer dizer suplicar e louvar. Por conseguinte, a ligação dos Salmos a este insigne rei de Israel é importante, porque ele é uma figura messiânica, Ungido do Senhor, no qual é de certa maneira ofuscado o mistério de Cristo. Igualmente importantes e significativos são o modo e a frequência com que as palavras dos Salmos são retomadas pelo Novo Testamento, assumindo e sublinhando aquele valor profético sugerido pela ligação do Saltério à figura messiânica de David. No Senhor Jesus, que na sua vida terrena recitou com os Salmos, eles encontram o seu cumprimento definitivo e revelam o seu sentido mais pleno e profundo. As orações do Saltério, com as quais se fala a Deus, falam-nos dele, falam-nos do Filho, imagem do Deus invisível (cf. Cl 1, 15), que nos revela completamente o Rosto do Pai. Portanto o cristão, recitando os Salmos, reza o Pai em Cristo e com Cristo, assumindo aqueles cânticos numa nova perspectiva, que tem no mistério pascal a sua última chave interpretativa. O horizonte do orante abre-se assim a realidades inesperadas, e cada Salmo adquire uma nova luz em Jesus Cristo, e o Saltério pode resplandecer em toda a sua riqueza infinita. Caríssimos irmãos e irmãs, tomemos portanto na nossa mão este livro santo, deixemo-nos ensinar por Deus a dirigir-nos a Ele, façamos do Saltério uma guia que nos ajude e nos acompanhe quotidianamente no caminho da oração. E perguntemos também nós, como os discípulos de Jesus: «Senhor, ensinai-nos a rezar!» (Lc 11, 1), abrindo o coração para receber a oração do Mestre, em que todas as preces hão-de chegar ao seu cumprimento. Deste modo, tornando-nos filhos no Filho, poderemos falar a Deus, chamando-lhe «Pai Nosso». Obrigado! |
